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Fate: A Saga Winx encontra meio-termo perfeito entre ridículo e envolvente

Na segunda temporada, live-action da Netflix calibra melhor suas investidas no kitsch

Havia algo de frustrante na primeira temporada de Fate: A Saga Winx, a contida adaptação em live-action que a Netflix produziu para o desenho animado icônico dos anos 2000. Para uma produção inspirada em um dos cartuns mais coloridos, fantasiosos e “gliterizados” de sua época, Fate buscava até demais encaixar a sua história em um molde de série teen convencional, evitando arroubos visuais, estabelecendo lentamente a mitologia do seu universo e apostando em clichês românticos do gênero ao invés de deixar a imaginação e a ação fluírem.

A segunda temporada mostra por que esse trabalho de modulação valeu a pena. Com uma base de fãs firmada, as regras de seu universo estabelecidas e as personalidades de suas protagonistas desenhadas, o showrunner Brian Young e sua equipe podem voar mais alto (em um caso, literalmente) na fantasia e nas incursões pelo território kitsch coberto tão bem pelo desenho. Os sete novos episódios de Fate: A Saga Winx são povoados por criaturas asquerosas, artefatos mágicos de função complicada e combinações de poderes até então inéditas, tudo realizado em um orçamento fracionário diante do momento áureo para séries de fantasia que estamos vivendo atualmente.

O que a produção da Netflix faz muito bem, no entanto, é usar o ridículo dessa execução técnica limitada a seu favor. A direção, dividida entre Edward Bazalgette (Doctor Who), Sallie Aprahamian (Poldark) e David Moore (Outlander), anda brilhantemente na linha entre a legitimação prestigiosa de uma mise-en-scene “realista”, evitando a minagem completa do potencial estético da série; e o prazer puramente escapista de uma decisão como incluir luzinhas fosforescentes na ponta dos tentáculos de sua mais recente criatura, ou dar às protagonistas – finalmente – asas de fada de verdade, criadas a partir do elemento que elas controlam com seus poderes.

No pique das sagas de fantasia que localizam cada estágio de sua trama em um ano escolar, a segunda temporada de Fate começa com o status quo de Alfea abalado. Rosalind (Lesley Sharpe) agora é a diretora, e ela parece estar se preparando para uma guerra contra um novo e poderoso inimigo – o mesmo que tem feito vários alunos da escola sumirem misteriosamente. Enquanto isso, Bloom (Abigail Cowen) e suas colegas de quarto continuam tentando boicotar o reinado da diretora de dentro para fora, e a protagonista continua tentando desvendar seu passado e a fonte dos seus incomuns poderes.

Entregar mais do que isso seria cruel, porque a temporada foge da estrutura televisiva comum, espalhando as reviravoltas igualmente através dos episódios e evitando a “barriga” de meio de temporada. Seria também, no entanto, fútil, porque Fate: A Saga Winx vai e volta em suas revelações e desenvolvimentos de trama com frequência e de acordo com os próprios e insondáveis caprichos. É um “efeito ioiô” que pode ser irritante para quem levar a produção a sério demais, mas também se mostra tremendamente divertido em um finale abarrotado de mortes, ressurreições e decisões precipitadas.

Existem algumas mudanças cosméticas nessa 2ª temporada de Fate que sinalizam um esforço para garantir a longevidade da produção. Criticada por colocar de escanteio Aisha (Precious Mustapha), reduzindo-a a um papel de “melhor amiga negra” na primeira temporada, a série investe na personagem com um romance e uma participação mais decisiva nas peripécias do grupo de protagonistas. Também alfinetada pela falta de representatividade LGBTQIA+ positiva, Fate dá palco para a narrativa de saída de armário de uma personagem importante, ainda que ela seja desenhada burocraticamente e venha quase às custas de uma outra elaboração queer, mais apimentada (mas moralmente questionável) em sua concepção.

No fim das contas, Fate: A Saga Winx convence porque é muito boa em fazer as negociações necessárias para o gênero em que se encontra. Ela cede aqui e ali à fórmula testada e aprovada da fantasia juvenil, se agarra ao envolvimento natural do espectador com personagens que já acompanha há mais tempo (grande culpado por aquele mito de que “toda série fica melhor na segunda temporada”), e aproveita o espaço conquistado pelo sucesso do primeiro ano para mostrar uma consciência mais aguda das próprias raízes kitsch. É importante saber ser “ruim” com classe, afinal.