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‘Morreu afogado e ficou duas semanas nas águas podres aguardando ser encontrado’, relata filha de vítima da enchente em Canoas

José se recusou a sair de casa quando os bairros começaram a alagar em Canoas. Com 30 mortes, município foi o que mais registrou óbitos decorrentes das enchentes no Rio Grande do Sul.

Por Madu Brito, g1 RS

José Marison de Barros Costa com a filha Daniela Costi — Foto: Arquivo pessoal

José Marison de Barros Costa com a filha Daniela Costi — Foto: Arquivo pessoal

Uma notificação no celular de Daniela Costi trouxe a pior notícia que ela poderia receber: o nome de seu pai estava na lista mortos divulgada pela Defesa Civil Estadual em decorrência das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul.

José Marison de Barros Costa, de 72 anos, um aposentado que morava no bairro Cinco Colônias, em Canoas, está entre as vítimas da tragédia. Ele morreu afogado na rua onde morava, o que, segundo a filha, foi consequência de uma decisão tardia de sair de casa.

“Morreu afogado e ficou duas semanas nas águas podres aguardando ser encontrado“, relata a filha.

José morava com o outro filho, Flávio, que estava abrigado em Eldorado do Sul, onde trabalha. Flávio não conseguia voltar para casa devido às inundações.

Apesar dos pedidos dos familiares, o aposentado decidiu permanecer em casa na Rua Araçá, acreditando que “a água não iria subir”, contou Daniela.

“Toda a família ligou pedindo para ele sair de casa, mas ele achava que não seria tanta água a ponto de se tornar a maior enchente da cidade de Canoas”, explica.

Preocupada, ela solicitou um resgate, que, de acordo com o relato, não foi atendido de imediato.

“O resgate demorou, foram muitos dias depois na casa de meu pai e relataram que ele não estava mais lá. Então ou ele estava em um abrigo ou estava morto”, pensou Daniela.

As duas primeiras semanas de maio foram de angústia e incerteza para os familiares de José. Daniela fez um boletim de ocorrência de desaparecimento, na esperança de que o pai tivesse sido resgatado.

Quando recebeu o nome do pai na lista de mortos, Daniela conta que foi direto para o Instituto Geral de Perícias, em Porto Alegre. “Fizemos o reconhecimento do corpo e era ele”, lamenta.

De acordo com a filha, o corpo já estava em estado de decomposição e o caixão precisou ficar lacrado.

“Morreu afogado próximo a casa dele. Ele saiu de casa tentando se salvar e morreu afogado“, relembra.

Quem era José

Jose, de 72 anos, era aposentado — Foto: Arquivo pessoal

Jose, de 72 anos, era aposentado — Foto: Arquivo pessoal

Após trabalhar durante 45 anos como servente de obras, José estava aposentado. Ele era natural do distrito de Camobi, em Santa Maria.

Segundo Daniela, ele criou os filhos sozinho, após ser abandonado pela esposa.

“Ele foi um pai super incrível, um super avô, muito dedicado, muito amoroso, muito responsável”, recorda.

A filha conta que José sempre se orgulhou de ter filhos trabalhadores como ele.

Canoas

A tragédia deixou um rastro de destruição e prejudicou a população de Canoas. O município está entre as cidades com maior porcentagem da população em domicílios particulares atingidos, atrás apenas de Eldorado do Sul, que teve 80,8% da população atingida, e Muçum, com 66,3%, de acordo com informações divulgadas pelo governo estadual na última quinta-feira (30).

Canoas lidera como a cidade com mais óbitos confirmados no estado. Segundo boletim divulgado pela Defesa Civil Estadual na manhã de domingo (2), o município tem 30 mortes confirmadas.

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